O Big Bang, apesar do nome, não foi exatamente uma explosão barulhenta como muita gente imagina. Nada de estrondo cinematográfico, colisão ensurdecedora ou algo parecido com o que costumamos associar ao início de tudo. A ideia é bem mais curiosa do que isso. Se fosse possível “ouvir” o Universo em seus primeiros momentos depois de sua expansão inicial, o resultado estaria mais próximo de um som experimental, quase como uma peça de música eletrônica estranha e hipnótica, do que de qualquer explosão clássica de ficção científica.
Foi justamente essa proposta que chamou atenção em um trabalho do físico John Cramer, da Universidade de Washington. Ainda em 2001, ele escreveu um artigo de revista tentando imaginar como teria sido o som do Big Bang a partir de dados científicos coletados sobre a radiação cósmica de fundo em micro-ondas, conhecida pela sigla CMB. Essa radiação é uma espécie de eco do início do Universo e representa um dos principais vestígios do evento que deu origem ao cosmos em um estado extremamente quente e denso.
A CMB pode ser entendida como um brilho residual que se espalha por todo o Universo observável. Ela surgiu cerca de 380 mil anos após o Big Bang, quando o cosmos já havia esfriado o suficiente para que elétrons passassem a orbitar núcleos atômicos, permitindo a formação dos primeiros átomos. Antes disso, a matéria estava em um estado tão energético que a luz não conseguia viajar livremente. Quando essa barreira caiu, a radiação pôde finalmente seguir seu caminho, e é justamente esse sinal que os cientistas observam até hoje.
A ideia de transformar esse fenômeno em áudio ganhou força de um jeito inesperado. Algum tempo depois da publicação de seu texto, Cramer recebeu uma carta de uma mãe da Pensilvânia dizendo que seu filho de 11 anos estava fazendo um trabalho escolar sobre o Big Bang e queria saber se esse som havia sido gravado de verdade. A resposta, claro, era não. Não existiam microfones registrando o nascimento do Universo há 13,8 bilhões de anos. Mesmo assim, a pergunta despertou no físico a vontade de tentar recriar essa experiência de maneira aproximada.
Foi então que ele voltou aos dados da radiação cósmica de fundo e buscou uma forma de convertê-los em informação sonora. O que ele fez não foi recuperar um áudio real, algo impossível, mas sim produzir uma aproximação baseada nas flutuações de temperatura observadas no Universo primitivo. Segundo o próprio Cramer, aquelas oscilações não eram apenas variações térmicas abstratas. Na prática, elas estavam ligadas a ondas sonoras reais que se propagavam pelo cosmos jovem.
As primeiras versões do experimento foram montadas com base nos dados da sonda Wilkinson Microwave Anisotropy Probe, a WMAP, missão da NASA que operou entre 2001 e 2010 com o objetivo de mapear diferenças de temperatura no céu da CMB. Mais tarde, o material foi atualizado com informações obtidas pela missão Planck, da Agência Espacial Europeia, que refinou ainda mais esse retrato do Universo antigo.
Cramer criou diferentes versões desse áudio, com durações que variam de 20 a 500 segundos. Cada uma delas condensa um intervalo gigantesco de tempo, cobrindo o período que vai de cerca de 380 mil a 760 mil anos após o nascimento do cosmos. Ao longo desse processo, à medida que o Universo se expandia e esfriava, o comprimento das ondas também aumentava, empurrando o som para frequências cada vez mais graves. O resultado, na descrição do físico, passou a lembrar mais um instrumento de baixo.
Para tornar essa recriação audível ao ouvido humano, foi necessário elevar a frequência de maneira extrema, em uma escala de 100 septilhões de vezes. O efeito sonoro resultante começa com uma vibração alienígena e mecânica, mergulha em um grave profundo e depois vai desaparecendo lentamente em um ronco cada vez mais baixo. É um tipo de som que causa estranhamento, mas também fascínio, justamente por oferecer uma forma sensorial de imaginar algo tão distante e abstrato quanto os primeiros capítulos da história do Universo.
Existe ainda uma curiosidade que deixa tudo isso mais interessante. Durante muito tempo, televisores analógicos exibiam aquele conhecido chiado visual entre canais, o famoso “chuvisco”. A maior parte daquela interferência vinha de outras fontes, mas uma pequena fração correspondia justamente ao brilho residual da radiação cósmica de fundo. Em outras palavras, por décadas, muita gente teve em casa um contato involuntário com um dos ecos mais antigos do cosmos sem sequer perceber.
A recriação sonora do Big Bang não significa que finalmente ouvimos o instante exato da criação do Universo, mas funciona como uma tradução científica e criativa de fenômenos físicos reais. E talvez seja justamente isso que torne a experiência tão impressionante. Não se trata apenas de escutar um som estranho, mas de tentar sentir, ainda que de forma aproximada, como poderia ter sido a vibração primordial de tudo o que existe.
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