O chamado da estrada. A vontade de conhecer seu próprio pai. Os EUA de 1916 se apresenta diante do jovem Jack Garron como um mundo a ser desbravado e conquistado. Aos 12 anos ele descobre que é adotado, e que seu pai biológico é um músico andarilho. Para encontrá-lo, decide fugir de sua cidade, Jamestown, pegando “carona” em um trem de carga em direção a Chicago. Ali ele encontra Sam, que passa a acompanhá-lo. Mas a estrada reserva encontros que podem mudar suas vidas para sempre.

Separados (DarkSide Books, 2020) foi originalmente publicado pela Image Comics nos EUA entre 2011 e 2012, em 7 edições.


O título da obra
O nome original da obra é “Severed”, que traduzido diretamente para português seria “decepado”. Mas a adaptação para “Separados” faz sentido porque a razão por trás do título vai para além do sentido físico literal, tendo também um sentido metafórico.
– O Modus Operandi do vilão (Sentido Literal)
O termo “severed” faz alusão direta à violência física da história, já que o vilão literalmente desmembra e corta os membros de suas vítimas.
– Laços familiares rompidos (Sentido Metafórico)
A palavra “severed” reflete o rompimento de laços. O protagonista, Jack Garron, descobre que é adotado e decide fugir de casa para buscar sua identidade própria. Ao pegar a estrada, ele corta os laços com o lar seguro e com a mãe que o criou, ficando vulnerável no mundo
– O fim do “American Dream” (Sentido Metafórico)
Na trama da obra a estrada representa uma promessa de liberdade, mas se transforma em um pesadelo onde as crianças são isoladas e separadas da sociedade. Uma fábula sombria sobre o individualismo e a perda da inocência. O título “severed” reflete essa sensação de desamparo: estar completamente “desconectado” ou cortado de qualquer rede de proteção.
O vilão
O vilão de Separados se apresenta como um homem com aparência entre adulto e idoso. Mas sua verdadeira idade é muito mais antiga do que sua aparência demonstra. O próprio personagem demonstra isso em suas falas: “Sou caixeiro viajante desde o início dos tempos.”; “Estou na estrada desde o começo dos tempos.”; “Quero chegar antes do fim dos tempos.”
Um indivíduo que assume diferentes identidades, mostra uma aparência gentil, e um sorriso acolhedor. Um sorriso que esconde a verdade: dentes pontiagudos e afiados, que lhes servem perfeitamente como canibal que é.

Análise dos elementos que constituem a obra
Roteiro: O roteiro tem um ritmo e uma cadência que lembram muito um andamento cinematográfico. Há cenas que fazem paralelos visuais, comunicando a intenção canibal do vilão. Além de um uso extremamente hábil de subversão de expectativa em vários momentos.
Arte: A arte mostra traços de um realismo que reflete a perda da inocência ao longo da estrada. E as cores, principalmente nas cenas onde a paisagem é evidenciada, parecem pintura a óleo.

Autores

Scott Snyder, roteiro, já figurou várias vezes na lista dos mais vendidos do New York Times por seus roteiros. Sua coletânea de histórias curtas, Voodoo Heart, estava entre os finalistas do prêmio Story, de 2006, e foi selecionada para a antologia Best American Short Stories de 2007. Snyder já escreveu histórias de super-heróis para a Marvel Comics, onde começou a trabalhar em 2009, e tem uma carreira mais extensa na DC Comics, onde escreve histórias para super-heróis como Batman e também para o selo Vertigo da editora.
Pela Vertigo ele publicou American Vampire, sua primeira série regular autoral. As cinco primeiras edições do título são acompanhadas por uma história original de Stephen King, um dos ídolos que despertou em Snyder a vontade por escrever. As ilustrações de American Vampire foram feitas pelo brasileiro Rafael Albuquerque. A publicação recebeu o Prêmio Eisner, um dos mais importantes do mundo dos quadrinhos. Separados é sua primeira história em quadrinhos fora da DC. Ele é professor da Universidade Sarah Lawrence e mora em Nova York.
Demais obras (selecionadas):
– Absolute Batman
– Batman
– Batman: Espelho Sombrio
– Clear
– Dark Nights: Death Metal
– Dark Nights: Metal
– Demons
– Detective Comics
– Justice League
– Monstro do Pântano
– Nocterra
– Vampiro Americano
– Voodoo Heart
– White Boat
– Wytches
Prêmios:
– (2026) Ringo Award for Best Series (Absolute Batman).
– (2026) Eisner Award for Best Continuing Series (Absolute Batman).
– (2023) Eisner Award for Best Digital Comic (Barnstormers).
– (2019) Inkpot Award.
– (2014) Eisner Award for Best Limited Series (The Wake).
– (2012) Stan Lee Award for Man of the Year.
– (2012) Stan Lee Award for Best Writer.
– (2012) Stan Lee Award for Best Ongoing Series (Detective Comics).
– (2012) Eagle Award for Best Writer.
– (2011) Harvey Award for Best New Series (American Vampire).
– (2011) Eisner Award for Best New Series (American Vampire).

Scott Tuft, roteiro, cineasta de formação, curtas-metragista premiado com filmes distribuídos para canais de tv e exibidos em mais de cinquenta festivais pelo mundo. Profissionalmente, escreveu uma ampla gama de roteiros para tv e cinema e também vários outros filmes e histórias em quadrinhos originais. Sua bagagem de cineasta teve forte influência no desenvolvimento de Separados.
Ele e Attila, que também é um grande fã de filmes, tiveram diversas conversas quanto ao estilo da HQ e se inspiraram principalmente em referências cinematográficas. Separados é sua primeira incursão nos quadrinhos. Ele passa seu tempo em Nova York, Los Angeles e em lugares entre as duas cidades. É amigo de infância de Scott Snyder.
Demais obras nos quadrinhos:
– Swamp Thing Annual

Attila Futaki, desenhos, artista húngaro de formação clássica, formado pela Escola Internacional de Quadrinhos de Florença, na Itália, é mais conhecido por sua adaptação em quadrinhos do livro Percy Jackson e os Olimpianos: O Ladrão de Raios, contratado pela Walt Disney Entertainment, que chegou à lista dos mais vendidos do New York Times. Ele também trabalhou em diversos quadrinhos europeus. Separados foi sua primeira história em quadrinhos nos EUA e ele ganhou total liberdade criativa por parte dos escritores Scott Snyder e Scott Tuft, que apenas explicaram as emoções que queriam transmitir com a história. A concepção visual, o esquema de cores e a dramaticidade das ilustrações saíram todas da mente de Attila. Ele morava em Budapeste.
Attila Futaki faleceu no dia 2 de janeiro de 2024. A notícia foi divulgada por sua editora francesa, Glénat, em um tweet, informando que o artista morreu após uma breve doença. Ele tinha 39 anos.
Demais obras (selecionadas):
– A kivarrt
– A Puskás
– Az apostol
– Budapest angyala
– Conan: The Phantoms of the Black Coast
– Percy Jackson e os Olimpianos: O Ladrão de Raios.
– Percy Jackson: Sea of Monsters
– Percy Jackson: The Titan’s Curse
– Spirál
– The Nameless City
Prêmios:
– (2018) Prêmio ADC (Art Directors Club) Alemanha 2018 (Frankfurter Allgemeine Zeitung)
– (2016) Prêmio de Excelência SND 2016 (New York Times)
– (2013) Prêmio SND (Society for News Design) – Melhor design esportivo de 2013 (New York Times)
– (2010) Seleção da Junior Library Guild (O ladrão de raios)
– (2010) Prêmio Zórád Ernö como Melhor Artista.

Greg Guilhaumond, cores, artista francês, estudou desenho e animação na Escola de Artes de Poitiers. Após se formar, passou alguns anos trabalhando com web design e artes gráficas. Criou capas e ilustrações para diversas revistas e RPGs franceses, além de ter produzido vários quadrinhos. O trabalho em Separados é sua primeira colaboração internacional. Mora e trabalha em Tours, na França.
Fonografiks, projeto gráfico e letras originais, pseudônimo que o designer britânico Steven Finch usa para assinar seus trabalhos com quadrinhos, Fonografiks fez as letras e/ou o projeto gráfico de vários títulos da Image Comics. Ele mora e trabalha no nordeste da Inglaterra.
Demais obras:
– Injection
– Popgun
– Saga
– The Strange Talent of Luther Strode
– They’re not like us

Dandara Palankof, tradução, é uma jornalista, tradutora e editora de quadrinhos brasileira. Graduada em Rádio e TV pela Universidade Federal de Pernambuco, foi responsável pela tradução para o português de diversas HQs, como Estranhos no Paraíso, Inimigos Mortais e Tempos de Colégio. Foi curadora da 7ª Bienal de Quadrinhos de Curitiba. Em 2021 foi coeditora da oitava edição da revista Ragu.
Prêmios:
– (2022) 34º Troféu HQ Mix na categoria de Melhor projeto editorial.
Reflexões finais
A leitura de Separados passa uma sensação cinematográfica, pela forma como o ritmo do roteiro, diálogos, enquadramento das cenas e iluminação dialogam entre si para produzirem uma obra que leva o leitor de carona nessa “road trip”. A densidade da graphic novel gira em torno dos dois personagens principais. De um lado, Jack Garron, um jovem ingênuo, imaturo e iludido. Que não valorizou a mãe adotiva e não acreditou na única pessoa que se tornou sua verdadeira amiga na estrada. De outro lado, o vilão, nem ao menos cabe tentar mencionar o nome dele, pois não se sabe. Ele vem mudando de identidade ao longo de sua existência. Apesar da aparência humana, parece ser uma encarnação do mal, tão antigo quanto a própria humanidade.
O vilão prende Jack em uma teia de enganação e conforto, tal qual uma aranha envolvendo sua presa, para depois saborear uma carne mais saborosa por ter sido bem tratada. Os possíveis paralelos/metáforas não param por aí. A forma como o vilão trata Jack é similar a criação do gado para obter bife Wagyu. E também remonta ao clássico conto de fadas dos Irmãos Grimm: João e Maria. Aliás, inúmeros contos de fadas e fábulas de diversas culturas foram tradicionais ferramentas fundamentais para ensinar crianças sobre os perigos da desobediência. O vilão de Separados vende sonhos e realiza pesadelos. A graphic novel surge então como uma versão moderna das tradicionais fábulas.
Fica então uma lição… quando sentir o chamado da estrada, talvez seja melhor não responder.
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