Ciência

Água de aquíferos antigos pode estar ligada a menor risco de Parkinson

A origem da água que você bebe todos os dias pode ter mais impacto na sua saúde do que parece. Um estudo apresentado na 78ª reunião anual da American Academy of Neurology indicou que pessoas abastecidas por águas subterrâneas muito antigas, como as formadas na última Era do Gelo, apresentaram menor risco de desenvolver Parkinson em comparação com quem consome água de aquíferos mais recentes.

A pesquisa foi conduzida por cientistas do Barrow Neurological Institute e analisou dados de mais de 12 mil pacientes com Parkinson e cerca de 1,2 milhão de pessoas sem a doença. Os pesquisadores cruzaram informações sobre o tipo de aquífero que abastecia determinadas regiões, a idade estimada da água e a presença de possíveis contaminantes ambientais.

O ponto central do estudo é a diferença entre águas subterrâneas mais “novas”, originadas de chuvas das últimas décadas, e águas muito antigas, armazenadas em camadas profundas do subsolo há milhares de anos. Segundo os autores, a água mais recente tende a estar mais exposta à poluição moderna, como resíduos industriais, agrotóxicos e outros contaminantes ambientais que vêm sendo associados ao risco de doenças neurodegenerativas. Já as águas mais antigas, por estarem mais protegidas em profundidade, costumam apresentar menor contato com esses poluentes.

Depois de ajustar fatores como idade, sexo e exposição à poluição do ar, os cientistas observaram que a água subterrânea mais recente esteve associada a um risco discretamente maior de Parkinson em comparação com a água muito antiga. Ainda assim, é fundamental reforçar que o estudo não prova causa e efeito. Ele aponta uma associação estatística, não uma relação direta de que determinado tipo de água provoque ou previna a doença.

Mas o que isso tem a ver com o Brasil? Muito mais do que parece.

O país abriga alguns dos maiores reservatórios de água subterrânea do planeta. O mais famoso é o Aquífero Guarani, que se estende por vários estados brasileiros e também por países vizinhos. Em algumas regiões, suas águas têm milhares de anos e ficam armazenadas em grandes profundidades, naturalmente protegidas da contaminação superficial. Outro sistema gigantesco é o Aquífero Alter do Chão, na região Norte, considerado um dos maiores do mundo em volume de água doce subterrânea.

Em áreas urbanas brasileiras, especialmente nas grandes capitais, o abastecimento costuma misturar água de rios, represas e poços profundos. Já em cidades do interior e zonas rurais, o uso de poços artesianos é bastante comum, o que significa que muita gente pode estar consumindo água subterrânea sem nem saber de qual aquífero ela vem ou qual é sua idade aproximada.

A discussão levantada pelo estudo internacional abre espaço para uma reflexão importante no contexto brasileiro. O país enfrenta desafios relacionados à contaminação por agrotóxicos, metais pesados e poluição industrial, especialmente em regiões com forte atividade agrícola ou histórico de mineração. Entender a origem da água e monitorar sua qualidade pode ser estratégico não apenas para evitar doenças infecciosas, mas também para reduzir possíveis impactos de longo prazo na saúde neurológica.

Embora ainda sejam necessárias pesquisas específicas no Brasil para avaliar essa possível relação entre tipo de aquífero e risco de Parkinson, o recado é claro. A água que consumimos não é apenas uma questão de quantidade, mas também de origem, proteção ambiental e controle de contaminantes.

Se você quiser saber de onde vem a água da sua casa, vale consultar a companhia de abastecimento da sua cidade ou os relatórios de qualidade divulgados pelos órgãos estaduais. Em um país com reservas subterrâneas tão vastas quanto o Brasil, essa informação pode ser mais relevante do que nunca.

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Hortência é profissional de Letras, educadora, tatuadora e mãe. Apaixonada por arte e cultura, une seus múltiplos interesses que vão da cultura pop à gastronomia para produzir conteúdos variados e criativos.

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