Ciência

Cientista do SETI explica por que ainda não ouvimos alienígenas e culpa pode estar nas estrelas

Uma das perguntas mais fascinantes da ciência continua sem resposta: se o universo é tão vasto e antigo, por que ainda não encontramos sinais claros de vida inteligente fora da Terra? Agora, um novo estudo sugere que a explicação pode ser mais simples do que parece. O problema talvez não seja a ausência de civilizações extraterrestres, mas sim a enorme dificuldade de comunicação no espaço. Segundo pesquisadores ligados ao SETI, o famoso programa de busca por inteligência extraterrestre, as próprias estrelas podem atrapalhar e até apagar os sinais de rádio que tentamos captar.

A ideia parte de um detalhe que, curiosamente, parece óbvio depois que alguém finalmente o apontou. Assim como chamadas de celular podem falhar por interferências no caminho, sinais vindos de outros sistemas estelares também podem chegar até nós distorcidos. O novo trabalho propõe que os cientistas talvez estejam subestimando o impacto causado pelo plasma turbulento expelido pelas estrelas, especialmente nos arredores do sistema de origem desses possíveis sinais alienígenas.

Quando astrônomos detectam um sinal incomum, muita gente logo pensa em extraterrestres. Mas, na prática, os cientistas costumam ser bem mais cautelosos. Um dos principais critérios usados para diferenciar um fenômeno natural de um possível sinal artificial é a largura de banda. Fontes naturais normalmente emitem radiação em uma faixa ampla de comprimentos de onda. Já um sinal tecnológico, principalmente se tiver a intenção de ser eficiente e alcançar longas distâncias, tende a ser muito mais estreito, concentrado e econômico em energia.

É justamente por isso que as buscas do SETI costumam se concentrar em sinais estreitos, os chamados narrowband signals. O problema, segundo o estudo, é que esse tipo de transmissão pode sair de seu planeta de origem bem definido, mas acabar se espalhando ao atravessar o ambiente turbulento criado pela estrela local. Esse processo dilui a energia do sinal em uma faixa maior de frequências, o que reduz sua intensidade aparente e pode fazer com que ele simplesmente desapareça dos métodos tradicionais de detecção.

Os pesquisadores Vishal Gajjar e Grayce C. Brown investigaram exatamente esse efeito. Para isso, eles usaram como base o comportamento do vento solar em nosso próprio sistema, analisando como ele afeta sinais enviados por espaçonaves, e depois adaptaram esses dados para diferentes tipos de estrelas. A conclusão foi que, em alguns sistemas, esse embaralhamento é pequeno e talvez não comprometa tanto as buscas. Em outros, no entanto, ele pode ser severo a ponto de esconder completamente uma tecnossinatura que, em condições ideais, seria detectável da Terra.

Segundo Gajjar, muitas buscas por inteligência extraterrestre são calibradas para captar sinais extremamente estreitos. Se esse sinal for alargado pelo ambiente da própria estrela de origem, ele pode cair abaixo dos limites de detecção, mesmo estando realmente ali. Em outras palavras, o silêncio que observamos talvez não seja silêncio de verdade. Pode ser apenas um caso de tecnologia extraterrestre tentando falar conosco, mas tendo a mensagem borrada antes mesmo de deixar seu quintal cósmico.

O cenário parece ser ainda mais complicado no caso das anãs vermelhas, estrelas menores e menos luminosas que o Sol, mas extremamente comuns na galáxia. Como elas emitem menos luz, os planetas potencialmente habitáveis precisam orbitar muito mais perto para manter temperaturas que permitam água líquida. O problema é que essa proximidade coloca esses mundos em regiões onde o plasma estelar é mais intenso e turbulento. Isso significa que, se existir alguma civilização vivendo em torno de uma anã vermelha, ela teria mais dificuldade para enviar sinais nítidos ao espaço interestelar, a menos que adotasse alguma solução avançada, como retransmissores posicionados mais longe da estrela.

Os números estimados pelo estudo chamam atenção. Para cerca de 70% dos sistemas estelares, um sinal de 1 GHz sofreria um espalhamento superior a 1 hertz. Em mais de 30% dos casos, a distorção passaria de 10 hertz. Em comprimentos de onda maiores, a situação fica ainda pior. E isso considerando apenas a atividade estelar normal. Durante ejeções de massa coronal, quando a estrela libera grandes quantidades de material ionizado, a interferência pode crescer de forma dramática, espalhando o sinal por mais de um quilohertz.

Mesmo assim, esses sinais continuariam mais estreitos do que a maioria das emissões naturais do universo. O problema é que, para os padrões usados hoje, muitos deles ainda poderiam passar despercebidos. Isso abre a possibilidade de que o chamado “silêncio de rádio” enfrentado pelo SETI não seja necessariamente uma prova de que estamos sozinhos, mas talvez uma limitação técnica da forma como procuramos.

Essa hipótese também entra em um debate maior da astrobiologia. As anãs vermelhas representam algo entre 70% e 75% das estrelas da Via Láctea, então elas são peças fundamentais em qualquer discussão sobre a existência de vida no cosmos. Há cientistas que defendem que seus planetas próximos seriam bombardeados por radiação e explosões estelares a ponto de inviabilizar formas de vida complexa. Outros argumentam que ainda pode haver maneiras de esses mundos permanecerem habitáveis. Se realmente existir civilização em sistemas assim, entender como seus sinais são alterados pelo ambiente estelar pode ser essencial para que finalmente consigamos encontrá-los.

Para Grayce Brown, o estudo mostra que a busca por tecnossinaturas precisa se adaptar ao que de fato chega à Terra, e não apenas ao que imaginamos que seria transmitido em condições perfeitas. Em vez de procurar apenas sinais idealizados, talvez seja hora de levar em conta tudo aquilo que acontece no caminho.

No fim das contas, essa pode ser uma das respostas mais frustrantes para o paradoxo de Fermi. Talvez os alienígenas até estejam tentando se comunicar, mas as próprias estrelas estejam sabotando a conversa. E, ironicamente, o universo pode estar menos silencioso do que pensamos.

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Hortência é profissional de Letras, educadora, tatuadora e mãe. Apaixonada por arte e cultura, une seus múltiplos interesses que vão da cultura pop à gastronomia para produzir conteúdos variados e criativos.

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