Durante décadas, o Neo Geo carregou a fama de ser um dos poucos videogames clássicos incapazes de rodar Doom. Enquanto o icônico jogo da id Software foi adaptado para praticamente todo tipo de hardware imaginável, desde calculadoras até impressoras, o lendário console da SNK permanecia como uma exceção. Agora, essa história mudou graças ao trabalho da comunidade homebrew.
Dois projetos independentes conseguiram colocar o clássico FPS em funcionamento no Neo Geo utilizando abordagens diferentes. Um deles é o Doom64KB, uma adaptação baseada em uma versão extremamente otimizada do jogo, criada originalmente para sistemas com apenas 64 KB de memória RAM. O outro é o DoomGeo, que segue um caminho diferente ao reinterpretar a forma como o jogo é renderizado para aproveitar melhor as características do hardware da plataforma.
O desafio sempre foi enorme por causa da arquitetura do Neo Geo. Ao contrário de computadores e consoles que possuem um framebuffer, onde cada quadro da imagem é desenhado diretamente na memória, o console da SNK foi projetado para trabalhar quase exclusivamente com sprites. Essa característica era excelente para jogos de luta e títulos em 2D, mas tornava extremamente complicada a execução de um jogo como Doom, que desenha uma cena tridimensional a cada quadro.
Para contornar essa limitação, os desenvolvedores recorreram a soluções bastante criativas. O Doom64KB utiliza a camada de texto do Neo Geo como uma espécie de micro framebuffer, sacrificando resolução e qualidade visual para tornar o jogo funcional. Já o DoomGeo abandona a ideia de reproduzir o motor gráfico original e utiliza um renderizador próprio, que converte previamente mapas e elementos do jogo para estruturas compatíveis com o sistema de sprites do console.
Embora nenhum dos projetos reproduza a experiência original com fidelidade total, ambos já conseguem exibir cenários reconhecíveis, paredes texturizadas, movimentação em primeira pessoa e mapas clássicos de Doom. O desempenho ainda apresenta limitações, mas a evolução nas últimas semanas impressionou a comunidade de desenvolvedores e entusiastas de consoles retrô.

O avanço é ainda mais significativo porque, até pouco tempo atrás, especialistas afirmavam que um port funcional seria praticamente inviável devido às restrições do hardware. A rápida evolução dos projetos mostrou que, embora existam compromissos importantes em resolução e desempenho, ainda era possível encontrar soluções engenhosas para contornar essas barreiras técnicas.
Mais do que disponibilizar Doom em mais uma plataforma, os projetos servem como demonstração do talento da comunidade homebrew. Eles mostram como um console lançado no início dos anos 1990 ainda pode surpreender quando explorado por desenvolvedores dispostos a entender cada detalhe de sua arquitetura.
Por enquanto, Doom64KB e DoomGeo continuam sendo projetos experimentais e voltados para pesquisa e preservação. Ainda assim, eles representam um marco para a cena retrô e encerram um debate que durava décadas. Depois de tantos dispositivos improváveis receberem versões do clássico da id Software, o Neo Geo finalmente também pode entrar para a famosa lista de plataformas que conseguem rodar Doom.
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